
Parte da nossa personalidade vem do que lemos ao longo da vida. Geralmente não registramos conscientemente “tal padrão na minha personalidade veio porque refleti sobre tal livro”, mas esta obra no meu caso, com certeza se enquadra nestes livros que deixaram sua marca.
Antes de falar do Sandman, vou explicar meu primeiro contato com “gibi de adulto”. Foi quando uma amiga me emprestou a primeira parte da série Hellblazer, eu tinha 14 anos. John Constantine estava nas últimas morrendo de câncer no pulmão, e tinha prejudicado tanta gente que sabia que ia direto pro inferno.

O que ele faz? Vende a alma para os três demônios chefes do inferno (o próprio Lúcifer entre eles). Quando os três chegam para reclamar sua alma percebem o problema: se brigarem pra ver quem fica com a alma do Constantine, correm o risco de destruir o inferno. A solução é curar o seu câncer e pensar no que fazer depois. A cena em que os demônios curam seu câncer é animal, dois deles o seguram e o outro diz algo assim: “vou lhe curar Constantine, mas vou fazer com que doa o máximo possível” – e começa a abrir seu peito com as mãos e arrancar os pedaços. E quando acaba a cirurgia, a primeira coisa que o Constantine faz é acender um cigarro agradecendo com uma tranquilidade cínica absurda (esquece o filme babaca com o Keanu “Neo” Reeves, aquilo é um lixo). Pronto, eu só sabia que queria ler mais sobre essa tal de revista Vertigo.
Alguns anos depois na faculdade, conheci outro nerd gente finíssima chamado Tárcio, e falando de quadrinhos e filmes estranhos descobri que ele tinha alguns exemplares do Sandman, da primeira edição ainda lançada pela editora Globo no começo dos anos 90. Depois da globo, ninguém mais tinha relançado Sandman no Brasil ainda (e se não me engano, até hoje não saiu até o fim novamente em bancas). Enfim, ele me emprestou e eu finalmente pude comprovar se estas histórias eram tudo isso que falavam mesmo.

O primeiro arco de histórias se chama “Prelúdios e Noturnos”. A história começa com Roderick Burguess fazendo um ritual de magia para aprisionar e controlar a Morte. Ele falha, mas dentro da redoma de vidro protegida por símbolos mágicos se materializa um homem pálido e magro, com um elmo, uma algibeira cheia de areia e um rubi no peito. Ele toma os objetos e mantém o prisioneiro.
O homem fica por 70 anos sentado dentro da cúpula, imóvel e sem dizer uma palavra. Burguess morre, e seu filho continua mantendo o prisioneiro. Até que um dia, o homem desmaia dentro da cúpula. Começou, e logo eles vão perceber que não deveriam se meter com os perpétuos, principalmente se ele for o irmão mais novo da Morte, o próprio Rei dos Sonhos…

Morpheus escapa e volta para o reino dos sonhos, faminto e enfraquecido sem seus objetos de poder. Seu reino ficou em ruínas sem a sua presença e vários sonhos e pesadelos fugiram do sonhar para o mundo dos humanos. Milhares de pessoas sofreram repercussões durante esses anos, entrando em coma, tendo insônia incurável ou ficando loucos. Após executar sua vingança no filho de Roderick Burguess ele começa sua busca pelos objetos que lhe foram roubados, os pesadelos foragidos, a reconstrução do sonhar e a maior obra de ficção que eu já li até hoje. São 70 edições, contando a saga da transformação de um ser egoísta, arrogante, cruel e insensível num homem que termina dando a sua vida perdoando a culpada pela sua destruição. Calma, não estou estragando o final… não é tão simples assim, e afinal sonhamos até hoje não é?

Ao longo da história vão aparecendo os irmãos e irmãs do Sonho, os Perpétuos: Morte, Destruição, Desejo, Desespero, Delírio e Destino. Cada um participa de histórias absurdamente bem amarradas e complexas, é incrível chegar no fim e ver que as edições têm algumas histórias aparentemente independentes, mas no final são detalhes chave pra o clímax no final da saga. Pra se ter uma noção do nível literário da obra, Neil Gaiman ganhou em 1991 o prêmio Fantasy World Award com a história Sonho de uma noite de verão. Os outros autores ficaram tão putos de perder para uma história em quadrinhos que choraram até mudar a regra, e a partir do ano seguinte quadrinhos não puderam mais concorrer… Neil Gaiman foi o único autor a vencer este prêmio com uma história em quadrinhos até hoje.
Voltando a história, após escapar Morpheus desce até o inferno para buscar seu elmo, mas, para conseguir de volta precisa vencer um duelo com um demônio. Ele vence (o duelo é muito legal), mas quando ia embora rola o seguinte diálogo entre ele e Lúcifer (desenhado com a cara do David Bowie):
Morpheus
- Agradeço. Os reis do Inferno são honrados. Vou me lembrar disso.
Lúcifer
- Honrados? Está brincando? Olhe a sua volta Morpheus.
- Há um milhão de lordes do inferno em formação de batalha. Diga-nos, porque deveríamos deixa-lo partir?
- Com elmo ou não, você não tem poder aqui… que força tem os sonhos no inferno?

Como ele sai dessa? Leia a história… Hehehe. Mas garanto que é com estilo e deixa o diabo com muita raiva. Eles se reencontram mais algumas vezes durante as histórias e rola muita coisa surpreendente. A busca pelos outros dois objetos também não é lá muito fácil, inclusive o nosso velho amigo John Constantine faz uma participação especial.

Após ter se vingado dos Burguess e recuperado suas ferramentas, Morpheus começa a notar que algo está diferente: e agora, porque ele não está satisfeito depois de tudo o que passou? 70 anos aprisionado foram o início de uma grande transformação em sua personalidade, e daí pra frente é uma grande viagem por várias épocas, vários universos e com seres de várias dimensões em histórias absurdamente criativas e cheias de referências cult de todo tipo, bandas, livros, deuses, ciência, política, folclore, cultura…
A história tem começo, meio e fim, e acabou acabado no número 70. Depois disso, só nos especiais encadernados e livros. Um dos especiais é o “Noites sem fim”, que têm uma história pra cada perpétuo. É muito legal, inclusive acho que é o único livro com uma história independente com o Daniel. Quem é Daniel? Olha a cara dele e diz o que acha.

Garanto que não vai se arrepender quando descobrir sobre o acordo entre Rei dos Sonhos e Shakespeare, ou como ele estraga uma convenção de serial killers para capturar o Coríntio, seu pesadelo mais caprichado que havia fugido.

Para os interessados: Está sendo lançada toda a coleção encadernada pela editora Conrad, e na Fnac é mais barato que qualquer outro lugar.
Mais sobre Sandman:
Site oficial do autor: www.neilgaiman.com
Artigo bem melhor que o meu: http://www.omelete.com.br/quadrinhos/artigos/base_para_artigos.asp?artigo=263
Site da Conrad: http://www.conradeditora.com.br/
Resumo dos arcos de histórias (contém spoilers): http://pt.wikipedia.org/wiki/Sandman_(Morfeus)